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terça-feira, 5 de julho de 2016

Blackout.



Eu queria um mundo com menos luz, mais escuridão

assim poderia analisar melhor as estrelas, contemplar a imensidão

ver o canal de planetas da enorme televisão,

ofuscada pelos milhares de vaga-lumes vagabundos terrestres,

perdida no antro elétrico da civilização.


Autor: H.
Ilustração: Wagner Medeiros

sábado, 18 de junho de 2016

Querido senhor Sabichão,


creio que faça jus ao apelido se comparado a tudo o que você sabe e aprendeu ao longo de seu curto tempo caminhando em crostas terrestres. Acredito que toda a sabedoria adquirida nos livros, teorias e pesquisas sirvam para uma porção de coisas como afagar o ego, elaborar uma conversa com um estranho sobre determinado assunto e uma infinidade de coisas que não cabem nesta folha de papel, mas Infelizmente todas essas teorias, pesquisas e informações que você carrega com tanto esmero, se contradizem e caem uma perante a outra porque nenhuma é sólida o bastante para compreender esse bicho arisco e complicado que a vida tem sido desde que Existência tomou consciência. 

É uma pena que você não tenha lido os livros certos, porque se tivesse se interessado por um livrinho fino e colorido com um garoto loiro de conjuntinho verde em traço torto na capa saberia que "o essencial é invisível aos olhos" e não há livro ou teórico bom o bastante que nos ajude nessa loucura cotidiana que é a vida com todos o seus setores concretos, abstratos e sonhados. 

Em seu vasto repertório falta o estudo dos sentimentos, o convívio para além das páginas, a sensibilidade e a percepção. Falta empatia e principalmente amor. Sim, meu caro,  AMOR essa palavra curta com milhões de significados, ideologias e interpretações em que todas parecem corretas, mas que no fundo jamais se soube definir bem o que é. 

Eu bem que tentei te ensinar sutilmente e te entreguei todo o meu coração, sem pensar muito no que aconteceria depois. Fostes um hóspede que desde o primeiro instante fora tratado como proprietário. Alguém que eu pensei ser capaz de aprender a amar como livro algum jamais ensinou, porque o amor precisa ser vivido e construído diariamente. Mas a sua obsessão pelo saber tornou-se a sua loucura. Não entende que a compreensão total dos sentimentos é algo para o coração, aquele órgão abstrato que venho lhe falando diariamente e que não é possível encontrar nas prateleiras de biologia das mais completas bibliotecas. 

Para ser mais didático e garantir que compreenda: Numa relação bem simples eu estive para nós como você nunca esteve nem para você mesmo. 

Estive porque amanhã de manhã já não estarei mais. E finalmente me livrarei dessa relação de mestre e aluno, cuja tanto me desgastou.  Espero que um dia você perceba que essa história toda de "aluno e professor" só cai bem para a música do cazuza. 

Do seu pupilo grato pela bênção de jamais ter aprendido uma lição sequer.

Autor: Kelven Figueiredo
Ilustração: Wagner Medeiros

terça-feira, 7 de junho de 2016

Perdido.



Não sei o que está se passando nesse fraco e embriagado coração. Não consigo ver mais nada nesses olhos tristes e afundados, marcados pela expressão de uma noite mal dormida. Não consigo organizar minha mente insana; tudo nela tende a se misturar e acaba se transformando em uma confusão que agride meu ser. E eu sou frágil, querido. Eu sou como pluma, leve, e acabo me desintegrando facilmente e o faço em forma de chuva; as vezes garoas, outras tempestades. As vezes acabo perdendo meu senso de razão e fica difícil manter a compostura e fingir que não vejo o que se passa comigo. É como se eu estivesse em uma via e os carros me atropelassem mesmo o semáforo estando com o sinal vermelho onde acabo sendo jogado no canto. E daqui eu vejo o mundo fluir sem mim. Oh, eu estou no canto agora, como sempre, sozinho. Mas então, quando fecho os olhos sou puxado para a pista de dança e agora estou me segurando em você e é tudo o que tenho é tudo o que preciso... Lágrimas rolam pelo meu resto, as luzes se acendem e você é tudo o que vejo. Então te abraço e isso aquece meus ossos. Aquece minha alma. Assim, lentamente, encosto meu coração em teu peito e aos poucos vou me consertando...

Autor: Bruno Cavalcante
Ilustração: Wagner Medeiros

sábado, 21 de maio de 2016

O disparo.




Um pouco de nós está no mundo, está em tudo. Um pouco de tudo no mundo está em nós. Ainda assim beiramos o esquecimento. Sem dar muita importância ao que acabara de ler, colocou o bilhete com a grafia mal escrita ao seu lado. Encostou o cano frio no seu queixo. Fechou os olhos. Sentiu as lágrimas surgirem, mas as segurou. Soltou seu último sorriso inexplicavelmente irônico e apertou o gatilho.
MORAL: Morreu sem saber que isso que escrevia era poesia.

Autor: Johnattan Douglas
Ilustração: Wagner Medeiros